3 de abril de 2007



(desenho inacabado, de há muitos anos,
na rápida espera de um metro,
ao olhar uma das esculturas do francisco simões
na estação do campo pequeno)

"Deixai-me limpo

O ar dos quartos

E liso

O branco das paredes

Deixai-me com as coisas

Fundadas no silêncio"

.

Sophia de Mello Breyner Andresen

...






"havia tomado convosco compromissos imprudentes que a vida viria a contestar: peço-vos perdão, o mais humildemente possível, não por vos deixar mas por ter ficado tanto tempo."




Marguerite Yourcenar










“É assim que um dia dizemos adeus, de muito longe, a alguém que nós fomos.”



Al Berto

e rumo ao mar.

.

(imagem: krsyztof falkner)

2 de abril de 2007

como uma âncora. eu.

(bjork anchor song - live in cambridge)

"The Anchor Song"

i live by the ocean
and during the night
i dive into it
down to the bottom
underneath all currents
and drop my anchor

and this is where i'm staying

this is my home



...

..

.

com todo o amor

"Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

(...)"

Sophia de Mello Breyner Andresen

...

..

.

dou-te as minhas mãos para que toques no que dói

dou-te os meus braços para que não tropeces

dou-te o meu amor para o que quiseres.

sempre.

parabéns minha querida mana.


1 de abril de 2007





"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou
não chega para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza de que todas as coisas
estremeciam só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus."

Eugénio de Andrade

(imagem: rui effe)

(escultura: joão cutileiro)

31 de março de 2007



"Os silêncios

Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo

Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo
que não digo

Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei não te persigo

Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo"

(Maria Teresa Horta, n 1937, Portugal
in "Só de Amor", Quetzal Editores, 1999)

28 de março de 2007

do fim




"Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem"

(sophia)

27 de março de 2007

tu ne peux pas savoir.

Je te rencontre.
Je me souviens de toi.
Qui est tu ?
Tu me tues.
Tu me fais du bien.
Comment me serais je doutée que cette ville était faite à la taille de l´amour ?
Comment me serais je doutée que tu étais fait à la taille de mon corps même ?
Tu me plais. Quel événement. Tu me plais.
Quelle lenteur tout à coup.
Quelle douceur.
Tu ne peux pas savoir.
Tu me tues.
Tu me fais du bien.
Tu me tues.
Tu me fais du bien.
J´ai le temps.
Je t´en prie.
Dévore-moi.
Déforme-moi jusqu´a la laideur.
Pourquoi pas toi ?
Pourquoi pas toi dans cette ville et dans cette nuit pareille aux autres au point de s´y méprendre ?
Je t´en prie...

Je te rencontre.
Je me souviens de toi.
Cette ville était faite à la taille de l´amour.
Tu étais fait à la taille de mon corps même.
Qui est tu ?
Tu me tues.
J´avais faim. Faim d´infidélités, d´adultères, de mensonges et de mourir.
Depuis toujours.
Je me doutais bien qu´un jour tu me tomberais dessus.
Je t´attendais dans une impatience sans borne, calme.
Dévore-moi. Déforme-moi à ton image afinqu´aucun autre, après toi, ne comprenne plus du tout le pourquoi de tant de désir.
Nous allons rester seuls, mon amour.
La nuit ne va pas finir.
Le jour ne se levera plus sur personne.
Jamais. Jamais plus. Enfin
Tu me tues.
Tu me fais du bien.
Nous pleurerons le jour défunt avec conscience et bonne volonté.
Nous aurons plus rien d´autre à faire que, plus rien que pleurer le jour défunt.
Du temps passera. Du temps seulement.
Et du temps va venir.
Du temps viendra. Où nous ne saurons plus nommer ce qui nous unira. Le nom ne s´en effacera peu à peu de notre mémoire.
Puis, il disparaîtra tout à fait.

(Margueritte Duras, in Hiroshima mon Amour)
(música: Erik Satie)



e tu

nunca

saberás.

26 de março de 2007

Mentiras

...porque há mentiras que dizemos a nós próprios.
e a mais ninguém.

23 de março de 2007

foi num dia assim. hoje lembro o sempre afago de ti.


(natércia campos, 7 julho 1935 - 23 março 2006)

Cada dia é mais evidente que partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudades nem terror que baste.

Sophia de Mello Breyner Andresen





(ouço o zeca "...A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome p'ra qualquer fim...")


sim.

num dia assim, exactamente como hoje.

há um ano.

com o sentir no coração quebrado.

natércia.

lembro-me de ti desde sempre.

de te visitar na prisão.

de fazer tartes de amêndoa com a mãe, de vez em quando, para te levarmos.

de não perceber porque tinhas de estar presa.

de te fazer dois desenhos.

de te abraçar.

de perguntar porquê.

de ouvir dizer que era um dia muito importante porque agora na prisão já podiam ter pensos higiénicos.

e arranjar o cabelo.

porque tu, natércia.

querida natércia.

de te deixarem sair condicionalmente para o 25 de abril.

de aprender palavras difíceis.

solidariedade.

de ler as tuas cartas.

de reler, vezes sem conta, as tuas cartas.

lembro-me de crescer assim.

e de vez em quando ía-te ver.


depois saíste.

lembro o jantar da liberdade, no bando, ainda na estrela.

de querer soltar a pomba, com a paula só, e a tonta não querer sair da gaiola...

lembro a importância de te ver, diariamente, durante a expo.

das intermináveis conversas porque tudo é importante. diariamente.

lembro o teu colo, o teu ombro generoso.

lembro o gesto da tua mão sobre a minha barriga e depois na cabeça da minha cria.

os teatros, os passeios, os jantares.


foi contigo que aprendi a palavra solidariedade.

lembro o sempre afago de ti.

em ternura e em verdade.

o

sempre

afago

de ti.



21 de março de 2007

à primavera.





de pequenos
em pequeninos passos.

ainda bem que voltaste.



(caetano veloso, cucurrucucuuuuuuuu paloma, in hable con ella, pedro almodóvar)
(hable con ella, pedro almodóvar, coreografia de pina bausch)