7 de fevereiro de 2008

assim de repente




estendo-me. distendo-me.
exponho-me. recolho-me.


o tempo submerge sem calendário.
sem data de chegada na distante linha da partida (que, pergunto-me, terá algum dia existido?...).
o eco da viagem como o sibilante zumbido da sombra.

a alma partiu no tecido que rasguei.
limito o gesto. imito o som em que da sombra me renasço em corpo e em retorno de onda.

penso livro e no corpo esvoaça a palavra que tatua como um eco.

chamo o vento. reclamo o azul onde o teu fôlego era a minha sede. e deixo quebrar o alicerce da palavra que não direi.

apanho a flor, recolho o gesto, exijo o silêncio ao toque dos dias. emudeço o viveiro de memórias que afixo na parede do olhar.

repreendo a alma que refaço ao encontro de mim.
não sei onde começo mas sei onde terminas.

imobilizo-me como se para uma fotografia que grito em sépia.

estendo-me. distendo-me.
exponho-me. recolho-me.

porque nada em mim se partiu irremediavelmente.

12 de outubro de 2007

arruma-se a vida em sentires desordenados




e fazem-se malas como se fossem mentira.








(imagem: bogdan zvir)

7 de outubro de 2007




suspensa por fios partidos
digo sete
desvelo o surgir entrançado na memória de antes
penso dias
sei da escolha
quebro o medo
desfio o presente que adivinho

coloco-os no chão
traço-os
destraço-me
sinto vermelho
estico
sei o chão
sei de mim

rasgo o último fio
enlargo-o à medida justa dos meus dedos
prendo-o
como se a mim
ao tacto dos pés descalços
penso ar faço chão
lavo a terra presa à boca

regresso no tremer dos dias
faço dos fios o meu caminho
da rede
andança
sobressalto em que serei chão
e vermelho o andar dos meus cabelos

e tenho já um chão plantado
onde uma casa nasce em espaço no porvir





(música: philip glass)
(imagem: bogdan zvir)

16 de setembro de 2007

E assim chegar e partir são só dois lados da mesma viagem



Mande notícias do mundo de lá
diz quem fica

Me dê um abraço, venha me apertar
tô chegando

Coisa que gosto é poder partir
sem ter planos

Melhor ainda é poder voltar
quando quero

Todos os dias é um vai e vem
a vida se repete na estação

Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar

E assim chegar e partir
são só dois lados
da mesma viagem

O trem que chega
é o mesmo trem da partida

A hora do encontro
é também despedida

A plataforma dessa estação
é a vida desse meu lugar
é a vida desse meu lugar
é a vida...





Maria Rita - Encontros E Despedidas
Milton Nascimento, Fernando Brant



regresso amanhã a um lugar que se fez em mim

repetido de gente
repetido de olhares
de estranheza
de silêncios

nas imagens que já não existem
cheias de caras
repetidas de sorrisos partilhados
de gente com quem se cresceu e fez crescer
de gente que já não está

tinha eu sido gente que veio para não voltar
vai vem na vida desse meu lugar

escolhi
é certo
talvez não o que me espera

de gentes
funções
olhares
tempo tanto que se retira amargamente do dia
da viagem

vai
vem
vai vem vai vem
aqui
gente a sorrir
gente a chorar

e hoje, nem a força dentro
dos que acreditam
do que acredito

de quem me deixou a coragem nas mãos
para suportar a incerteza
o excesso
o quando
o quanto

hoje nem a força dentro
só o coração, apertado
da escolha
da consequência
da amargura presa ao canto da boca

engulo em seco

sorrio
é só o medo
penso
é só o vento dentro
penso
e sei que não
não é o medo
é o resto

e vou
de coração aberto
respiro fundo
vai correr bem
penso
e sei que

e canto baixinho

E assim chegar e partir
são só dois lados
da mesma viagem

O trem que chega
é o mesmo trem da partida

A hora do encontro
é também despedida

A plataforma dessa estação
é a vida desse meu lugar
é a vida desse meu lugar
é a vida...


da escolha:salsugem: olha para mim


...

15 de setembro de 2007

barulho obrigatório





16 de Setembro de 2007, Largo do Camões, às 18h00




"“Façam barulho e não desviem o olhar: salvem o Darfur!”

O dia 16 de Setembro foi escolhido, a nível internacional, como o dia de acção global por Darfur.

Apesar da aprovação da Resolução 1769 pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, autorizando o destacamento das forças de manutenção de paz, continuam os ataques a civis no Darfur. Até que parem os ataques e que as forças de manutenção de paz sejam efectivamente colocadas no terreno, a comunidade internacional não deve desviar os olhos do Darfur.

No dia 16 de Setembro, a Campanha Por Darfur convida a população a concentrar-se no largo do Camões, pelas 18 horas e a fazer barulho ou a usar uma venda nos olhos, para chamar a atenção dos governantes que não devem desviar os olhar do que se está a passar no Darfur.

No local poderá subscrever uma petição à Presidência da União Europeia pedindo a inclusão da situação no Darfur na agenda da Cimeira UE /África. A AI está também a promover uma petição sobre a entrada das forças de manutenção de paz das Nações Unidas no Darfur. http://www.globefordarfur.org/act_now/signup.php

“Façam barulho e não desviem o olhar: salvem o Darfur!”
Data: 16 de Setembro
Hora: 18h00
Local: Largo do Camões (Lisboa)

Apareça, venha fazer barulho!"


ora vamos lá!!!

fica. sempre. comigo. fico. sempre. contigo.

E quando se aproximou a hora da partida:
- Ah! disse a raposa... Vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quiseste que eu te cativasse...
- É certo, disse a raposa.
- Mas vais chorar!, disse o principezinho.
- É certo, disse a raposa.
- Então não ganhas nada com isso!
- Ganho, sim, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois acrescentou:
- Vai ver outra vez as rosas. Compreenderás que a tua é única no mundo. Quando voltares para me dizer adeus, faço-te presente de um segredo.
O principezinho foi ver outra vez as rosas.
- Vós não sois nada parecidas com a minha rosa; ainda não sois nada, disse-lhes ele. Ninguém vos cativou, nem vós cativaste ninguém. Sois como era a minha raposa. Não passava de uma raposa igual a cem mil raposas. Mas fiz dela minha amiga e agora é única no mundo.
E as rosas ficaram bastante aborrecidas.
- Vós sois belas, mas vazias, disse-lhes mais. Ninguém vai morrer por vós. É certo que, quanto à minha rosa, qualquer vulgar transeunte julgará que ela se vos assemelha. Mas, sozinha, ela vale mais do que vós todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que pus numa redoma. Porque foi ela que abriguei com um biombo. Porque foi por causa dela que matei as lagartas (excepto duas ou três para as borboletas). Porque foi ela e só ela que ouvi lamentar-se ou gabar-se, ou mesmo, por vezes, calar-se. Porque é a minha rosa.
E voltando para junto da raposa:
- Adeus, disse ele.




- Adeus, disse a raposa. Vou dizer-te o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se recordar.
- Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se recordar.
- Os homens esqueceram esta verdade. Mas tu não deves esquecê-la. Ficas para sempre responsável por aquele que cativaste. És responsável pela tua rosa
- Sou responsável pela minha rosa, repetiu o principezinho a fim de se recordar.



in O Principezinho, Antoine de Saints-Exupéry



...



...



...

fica. sempre.
porque partes, sempre.
porque ficas. comigo.

sem peso. neste alívio do que.
que fica.
que me és.
com todo o amor.

aqui.

...


aqui.

25 de agosto de 2007

olhos dentro

"Meus queridos amigos,
Escrevo a convidar-vos para um espectáculo muito especial.
A viver nesta doideira de ser uma música cigana, entre Nova Iorque, o Brasil e a bela Lisboa, finalmente vou poder partilhar convosco a música que escrevi ao longo de 6 meses, a partir de uma casita do Harlem, a pensar em noites de B.Leza, morabeza, Lisboa e as suas belas curvas, e o Nordeste Brasileiro, que se tornou a minha terceira casa. O Verão passado redescobri uns amigos do Hot, e de um espectáculo do Aué no B.Leza nasceu a Catarina do Aué na minha mente.
As músicas são fruto de muito amor às nossas tradições várias, e da paixão de cantar e tocar tambor.
E estou desejosa de partilhá-las (finalmente!!) com vocês! O cenário é: Hoquey Bar (mesmo em frente ao Palácio da Vila, Sintra)

6a feira, 24 de Agosto, das 21h as 23h - dado o microclima sintrense ser esperado aparecer, convém trazer uns casaquitos apropriados, que o show é ao ar livre!

Um grande beijo, abraços, e até lá!

Catarina Racha"



olhos dentro. olhos fora.

alma dentro. coração limpo.

na calmia morna da noite, os amigos.
os sorrisos. os risos de tudo e nada. rir como há tanto tempo não.
a cumplicidade.

a rasgar solto o timbre da noite tanta de lua, a voz belíssima, terna, da catarina, cheia do volume que molda a alma mareada.

as palavras desenhadas na primeira partilha, tornam-se espirais na generosidade dessa dádiva.

olhos para dentro de um sorriso.
onde se recolhe o mel e a interrogação.

e o tanto bem que sabe.


obrigada amigos.


e (porque a qualidade destas imagens - não havia luz, desta captação de som que é o que se vê mas não se ouve como merecido) mais um cheirinho da catarina, noutro contexto, noutro lugar, com outras gentes, com a mesma força.



...
e já agora afirmar de espanto, a partilha não tem preço!

quem me explica...?...





"Taxa de Consumo para se partilhar um Prato Principal 2,00"!!!

e um céu cheio de flores dentro para ti, catarina.

23 de agosto de 2007

freedom. now.




...

porque nós somos.

mas alguns não.






They throwed him in jail
And they kept him there
Hoping soon he'd die
That his body and spirit would waste away
And soon after that his mind


But every day is born a fool
One who thinks that he can rule
One who says tomorrow's mine
One who wakes one day to find
The prison doors open the shackles broken
And chaos in the street


Everybody sing we're free free free free
Everybody sing we're free free free free
Everybody sing we're free free free free


They throwed him in jail
And they kept him there
Hoping his memory'd die
That the people forget how he once led
And fought for justice in their lives


But every day is born a man
Who hates what he can't understand
Who thinks the answer is to kill
Who thinks his actions are god's will


And he thinks he's free free free free
Yes he thinks he's free free free free
He thinks he's free free free free


Soon must come the day
When the righteous have their way
Unjustly tried are free
And people live in peace I say
Give the man release
Go on and set your conscience free
Right the wrongs you made
Even a fool can have his day


Let us all be free free free free
Let us all be free free free free
Let us all be free free free free


Free our bodies free our minds
Free our hearts
Freedom for everyone
And freedom now


Freedom now
Freedom now
Freedom now


Let us all be free free free free
Let us all be free free free free
Let us all be free free free free


(tracy chapman)



...

"and i dedicate it to everyone involved, amesty international, everyone here, (...)activists from around the world - God bless you each. take care"

Alanis Morissette




...

care. take care.


Support Amnesty International


porque a tua assinatura é importante.


http://www.amnistia-internacional.pt

17 de agosto de 2007

olha para mim



Escolhemos sem perder o medo.
Escolhemos com uma mão cheia.
A outra vazia ainda do por vir.
Com os olhos brilhantes da margem que fica.

Escolhemos a viagem.
A mão vazia recolhe o sal que escorre.
Cola-o ao coração para que seja sempre limpo.

Sacode-se o tempo dos ombros, a já saudade que teima em fazer-nos sorrir, levanta-se o passo, murmura-se asa e o medo ficou já no chão…








...

e diz-se um ‘até já…’ baixinho.

(à teresa, pelo tanto que aprendo, de generosidade, de grandiosidade humana, pelo colo. à salete, pela cumplicidade, pela partilha, pela amizade. aos meus tantos meninos de aprender pelo que tanto me ensinaram e souberam receber, por me deixarem ser testemunha de um crescer tão bonito. à reut, à andreia, pelo profissionalismo, pela persistência, com os meus outros meninos, por me terem aberto a porta para além dos livros, ao autismo, ao síndrome de down. ao vasco, ao gonçalo, estes ‘meus’ meninos que me ensinaram a importância da existência, da luta, da não desistência, do estar em verdade, em generosidade, no aqui e no agora.)

...

sempre.



(montagem: patrícia pina)
(música: 'scorn not his simplicity' letra de Phil Colter, escrita para o filho, portador de Síndrome de Down, na voz de Sinèad O'Connor)
(ilustrações de meninos autistas, imagens retiradas da net de diversos sites relacionados com as patologias específicas)
recebi, via mail, uma resposta muito bonita a esta montagem que fiz.
um pedido, também, de poder ser enviado a outros terapeutas e pais.
claro que sim!

sejam bem vindos a esta margem de mim, sem medo de aqui deixarem a vossa passagem.